Acção e Reflexão
Blogue para Seminário de Mestrado SS UCP
11 May 2009
A respeito dos últimos ficheiros encaminhados pela Prof. Marta, sobre o projecto que irá ser apresentado sobre o NLI de Rabo de Peixe, sublinho aqui algo que nesses documentos me fez reviver a razão pela qual escolhi este caminho e que me faz avançar dia para dia...
Para Refletir?
“A utopia está lá… no horizonte. Aproximo-me dois passos, ele afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte afasta-se dez passos. Por mais que caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que não deixe de caminhar!”
Eduardo Galeano
Em resposta à Ana Barroso sobre o trabalho em equipa:
11 May 2009
Tenho em mente a experiência em equipa interdisciplinar de 2002-2008, no âmbito da intervenção precoce e da educação especial, no apoio às faixas etárias compreendidas entre os 0-16 anos de idade. Ao nível da intervenção precoce havia, na altura e pressuponho que deve continuar, uma acesa discussão em torno dos conceitos ‘multi’ (múltiplos, diversos), ‘inter’ (entre um e outro, entre dois, duplo) e ‘trans’-disciplinar (transferência, transformação, trânsito).
Pretendia-se que a intervenção precoce atingisse o nível ‘superior’ de transdisciplinriedade, tornando viável que cada membro da equipa pudesse intervir noutra qualquer área profissional; desde que assim fosse considerado eficaz, eficiente, oportuno e aceitável pela equipa. Um exemplo: uma educadora de infância a desempenhar funções de terapia da fala (com articulação e formação da respectiva terapeuta) e vice-versa, numa sessão de terapia da fala poderem ser conjugadas aprendizagens específicas do campo profissional da educadora de infância.
Faltou sempre e só, a componente da aceitação. As tentativas efectuadas no sentido da transdisciplinariedade foram goradas, a meu ver, devido à espiral propulsionadora de negativismo receoso que assombra a nossa mente humana. Na área laboral, dado o peso relativo do trabalho na nossa experiência social, parece ainda haver maiores obstáculos à prática de partilha de saberes; havendo em muitos casos a sensação de que essa partilha, com carácter de ‘transferência’, tinha como significação directa o ‘estar-se à beira de um precipício’, cuja queda era percepcionada como senha de entrada directa no desemprego. Por isso, a mera proposta de abrir mão dos respectivos saberes profissionais, produto da especialização que cada membro detém, pode provocar duras guerras e gerar fissuras profundas nas dinâmicas das equipas.
A interdisciplinaridade é um nível intermédio. Julgo que será neste sentido que a Ana Barroso usa o termo ‘multi-profissional’, quando se refere ao diálogo e à flexibilidade das fronteiras. Haverá uma troca combinatória entre os membros da equipa, mas dois a dois, isto é, em relação biunívoca. Todavia, não estando prevista a este nível, a viabilidade de substituição entre profissionais de áreas diferentes, que a transferência e o trânsito de saberes inerentes à transdisciplinariedade pressupõe.
Concebo a multidisciplinaridade como o nível menor e mais pobre, dada a probabilidade de se desembocar facilmente em situações em que mais não são do que simples ‘amontoados’ de saberes, que até se reúnem com alguma periodicidade, mas sem conseguirem uma interacção mínima satisfatória, dado cada membro estar concentrado muito mais na defesa das suas próprias ‘vestes’ profissionais, que ainda por cima, considera terem supremacia sobre todas as demais.
O desafio da transdisciplinariedade, tal como tantos outros na nossa experiência humana, remete-nos para a necessidade de ‘outro olhar’, que contrabalance esta desproporção e este insustentável peso da negatividade, do patológico, do queixume estéril e da linguagem da desesperança. É considerável a imensa quantidade de livros que apontam caminhos para a felicidade, a partir da imperativa necessidade dos ‘autos’ (auto-estima, auto-realização, auto-confiança, auto-ajuda, auto-defesa). Isto num contexto de urgência da superação das barreiras a ultrapassar, sem nos questionarmos até que ponto não será o próprio indivíduo a mais complicada das barreiras, quando se descrê, quando cai em inseguranças, ansiedades e depressões.
O estudo científico das emoções positivas, do carácter positivo e das instituições positivas nas organizações e locais de trabalho tem vindo a ser gradualmente reconhecido (Marujo, Neto:2007). Têm sido muitos os autores a propor intencionalmente um olhar enviesado positivo para desenvolver o potencial dos indivíduos, das organizações e das equipas; já que será baseado nas forças, talentos e em formas energizantes.
‘Não negligenciando o negativo, mas tornando-o irrelevante quando comparado com o positivo, num ratio de três interacções positivas para cada uma negativa, o acto de sublinhar o bom e a sua potenciação permitem um grau de florescimento dos sistemas que os faz diferenciar dos que estão em apatia ou desânimo’ (Fredrickson &Losada:2005, in Marujo & Neto: 2007).
Eis uma boa abordagem para o trabalho em equipa e para as COP’S; uma óptima estratégia para superar obstáculos da experiência humana global e… uma excelente pista para a construção dos nossos portfólios.
Trabalho em equipa multi-profissional
04 May 2009
Actualmente, diferentes grupos profissionais associados ao domínio da saãude são requeridos para garantir a prestação de cuidados integrados num contexto multi-profissional que assenta em princípios de especialização, racionalização, maximização e não duplicação. A prática multi-profissional refere-se a uma equipa de pessoas de diversas disciplinas que trabalham em conjunto para uma finalidade comum, contribuindo de forma diferente e complementar para a prestação de cuidados centrados na pessoa. (Leathard, 1994, op. cit. McCallin, 2001)
A finalidade do trabalho multi-profissional consiste em conhecer as necessidades da pessoa, em todas as suas dimensões, e intervir no sentido da supressão das mesmas. Ser e trabalhar como membro de uma equipa implica a partilha de um enfoque comum e a clarificação de papéis, responsabilidades e comunicações de cada um (Bennet e Ebrahim, 1992, op. cit. Webster, 2002). O desempenho bem sucedido da equipa implica também que todos os seus membros estejam permanentemente envolvidos na resolução de problemas e nos processos de tomada de decisão (Whitlock, 1999, op. cit. Webster, 2002).
O trabalho em equipa não é concretizável quando as fronteiras profissionais são inflexíveis (McCallin, 2001). O diálogo é considerado preponderante para o sucesso da multi-profissionalidade, na medida em que facilita a discussão da filosofia da equipa, valores e perspectivas partilhadas para garantir a qualidade dos serviços prestados, bem como veicula o conhecimento e apreensão dos papéis dos intervenientes por parte de cada actor envolvido.
À semelhança do que acontece no domínio da saúde, tem sido constante o apelo às práticas multi-profissionais nas diversas áreas de intervenção do Serviço Social.
Pelo facto de se enaltecer a centralidade do diálogo e da reflexão conjunta como fundamentais à sua eficiência e à produção de conhecimento colectivo, a dinâmica defendida no trabalho em equipa multi-profissional parece evidenciar semelhanças com a de uma comunidade de prática.
Que experiência temos de trabalho em equipa multi-profissional?
Em que medida contribuímos para a efectivação do seu propósito?
Promovemos a reflexividade e o diálogo? De que forma?
Que obstáculos sentimos?
Que estratégias privilegiamos para os superar?
Bibliografia consultada:
McCallin, A (2001), "Interdisciplinary practice - a matter of teamwork: an integrated literature review", Journal of Clinical Nursing, nº 10: 419-428;
Webster, J. (2002), "Teamwork: understanding multi-professional working", Nursing Practice, vol. 14, nº 3: 14-19.
30 April 2009
Na minha modesta opinião, a nossa prática de mestrandos tem-nos permitido (nalguns casos apenas reforçado, ou relembrado) o conhecimento de um dos principais postulados sobre o ‘conhecimento’: que somos e seremos simplesmente eternos aprendizes. É um facto que a figura do ‘mestre’ tem-se distribuído por diferentes actores consoante o momento histórico/civilizacional. Na sequência das inovações tecnológicas e da consequente globalização, há mesmo uma mudança de paradigma educacional com o advento do ‘E-Learning’ (muito mais ‘E’de Electronic do que ‘L’ de Learning, mas isso é outra história) e com o deslocamento da centralidade do processo de aprendizagem do ‘mestre’ que antes tinha a função de transmitir o conhecimento de que era detentor, para o ‘aprendiz/aluno e agora, mais que nunca, autodidacta, dada a facilidade de acesso à informação.
O enaltecimento da aprendizagem a partir das práticas no sentido das COP'S de Wenguer, nem sequer me aparece como uma mudança paradigmática, no sentido em que apenas se altera o sentido da relação vertical, para maiores graus de horizontalidade no processo de construção do conhecimento; permanecendo o mesmo princípio básico de aprendizagem baseada no desempenho de tarefas práticas. O que difere é que na actualidade os próprios ‘mestres’ recolhem-se à humildade de eternos aprendizes e ficamos com esse papel (diria esse enorme labor) diluído um pouco por todos nós.
Esta centralidade no aluno pode ofuscar a sua condição de ‘aprendiz’, sendo por vezes causadora de um desalinhamento de expectativas entre os pólos professor/aluno. Noto, até em mim própria, atitudes que por vezes podem ser entendidas como resvalando a falta de respeito e de humildade pela figura do professor (daria um bom objecto de investigação, ir averiguar como é que os alunos e os professores estão a reequacionar os seus papéis, face à mudança de paradigma).
Enquanto aluna, a questão que mais me tem atormentado é: o que esperam de mim? Que implica um trabalho de reajustamento ao novo paradigma, em que sinto a focagem do processo de aprendizagem a incidir muito mais sobre mim própria. E o que mais me desestimula é, precisamente não conseguir percepcionar os contornos mínimos dessas expectativas que sobre mim recaem. Daí a importância enorme de haver feedback informal por parte de quem tem a função de professor, que será muito bom se contribuir para corrigir o rumo e perfeito se também estimular para maiores níveis de trabalho, na direcção dos objectivos daquele processo de aprendizagem específico. Se percepcionado como provocatório, será desastroso.
Sinto, desde o início deste percurso académico, mudanças significativas no delineamento destes contornos, isto é, acho que tem diminuído o desalinhamento de expectativas, e isso parece-me muito positivo.
Tal como muito positivo tem sido, na minha opinião, o trabalho de reflexão que temos vindo a fazer, sobre a contextualização, a globalização, a multidimensionalidade e a complexidade, enquanto princípios básicos para o ‘conhecimento pertinente’ (Edgar Morin:2002 in texto publicado no Ciaris). Porque, ao invés dum pensamento científico mais tradicional, que fragmentava e compartimentava, através da especialização; neste meu mais recente percurso académico, tem-me sido feito um forte apelo para este pensamento científico mais pertinente, na medida em que consegue ir ao encontro das exigências que se colocam ao cidadão do novo milénio, e em especial ao Assistente Social: a exigência de solucionar problemas cada vez mais relacionados, transversais, multidimensionais e globais.
Todos reconhecemos a importância da teoria, e julgo que não é só aparentemente. Todavia ‘a vida não é aprendida somente nas ciências formais…’ (Morin: in texto publicado no Ciaris). Fazendo uma adaptação grosseira duma frase de Holderling (in Morin, ob cit) diria ‘ o homem habita praticamente na terra, mas também teoricamente e se a teoria não existisse, não poderíamos desfrutar do sentido das nossas práticas’.
O conceito de "prática" na perspectiva de Wenger
26 April 2009
Na perspectiva em que Wenger privilegia a utilização do conceito de prática este não cai nas tradicionais dicotomias actuar/conhecer e concreto/abstracto. Este conceito é frequentemente utilizado como antónimo de teoria, ideias, ideais ou discurso. No entanto, o autor defende que o comprometimento na prática envolve sempre a pessoa ou o profissional na sua totalidade, agindo e conhecendo em simultâneo.
Na sua teorização sobre a pertinência da criação de comunidades de prática, Wenger enaltece-as enquanto espaços privilegiados de desenvolvimento e partilha das diferentes formas de compreender e apreender o mundo, as realidades com que cada um interage. Independentemente das discrepâncias existentes entre o discurso e a acção, o que se ambiciona e o que se empreende, o que se conhece e o que se consegue manifestar, as comunidades de prática viabilizam a articulação entre as referidas dimensões que frequentemente surgem dissociadas.
A relação entre a teoria e a prática é sempre complexa e interactiva. A prática não está imune à influência da teoria, mas também não se circunscreve à realização da teoria nem é uma mera aproximação da mesma. Alguns estudos realizados evidenciam que se espera uma maior reflexividade dos teóricos comparativamente a outros profissionais de uma mesma disciplina. No entanto, Wenger sublinha que o carácter formal dos seus produtos finais podem ocultar as complexidades da prática e os processos quotidianos dos quais emergem. Defende que "prática é prática" e apela à necessidade de lhe atribuir sentido, particularmente através da participação em espaços que promovem a reflexividade em conjunto com outros profissionais.
Aparentemente todos reconhecemos a importância da teoria, caso contrário não regressaríamos à Academia. Algo nos moveu até aqui....
Seria a tal necessidade de atribuir sentido às nossas práticas?!
Iniciámos este percurso há alguns meses e arrisco dizer que tem sido constante o incentivo à articulação entre teoria e prática. Perspectiva-se a produção de conhecimento científico, que emerge precisamente da complexa relação entre ambas. A reflexividade, a sua centralidade na produção de conhecimento e na melhoria da prática a diferentes níveis, tem sido um tema recorrente nos seminários.
Que espaços reservamos para reflectir a nossa prática?!
Em colectivo ou individualmente, de que forma preconizamos esta reflexão que reconhecemos ser preponderante por diversas razões?!
Que conhecimento produzimos ou aprofundamos a partir da nossa prática?!
Que mudanças sentimos desde o início deste percurso académico?!
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