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Identidade do 'Pé Descalço'

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Author: Florbela

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Enquanto cozinho, lavo, limpo e engomo (o grosso das minhas práticas profissionais do momento), a cabeça pode pensar noutras coisas. Então, já que o tema da 'Identidade das Botas Brancas' não surtiu reacção, trago hoje aquilo a que chamaria a 'Identidade do Pé Descalço'.

E, tomo como ponto de partida, um mail que anda a circular na Net, da autoria do esctritor moçambicano Mia Couto. Diz assim:

«Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu encontrei '7 sapatos sujos' que necessitamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e o 7 é um número mágico:

1º sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros

2º sapato: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho

3º sapato: o preconceito de que quem critica é um inimigo

4º sapato: a ideia de que mudar as palavras muda a realidade

5º sapato: a vergonha de ser pobre e o culto das aparências

6º sapato: a passividade perante a injustiça

7º sapato: a ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros»

Ora, ficando eu maravilhada com esta 'complexidade simplista', apeteceu-me lançar o desafio a esta COP, para coconstrução dum modelo deste tipo, adaptado ao Serviço Social. Avanço com uma hipótese (aliás ontem trabalhada na aula, enquanto fundamento, pertinência e diria mesmo inevitabilidade da SPV/COP):

1º sapato: a ideia de que os profissionais da ajuda, não precisam ser ajudados.

Bora, colaborar com mais propostas de 'sapatos sujos' a deixar na soleira da porta deste campo profissional que é o nosso; no pressuposto que, assim descalços de alguns preconceitos (que esta COP considerará de básicos), conseguiremos ser melhores profissionais, que é o que afinal todos queremos, ou não?

 

Comments  Comments

6e3yqx220150-02_thumb_small Soraia | Clock  05 March 2009:

2º sapato: a ideia de que temos de ser capazes de tudo conseguir resolver.

 Magda | Clock  14 March 2009:

Interessantissimo. Ou não seria Mia Couto! Reflectindo sobre o 4º sapato - sendo a linguagem uma construção de palavras sobre uma determinada realidade, questiono se ao mudarmos as palavras não estaremos a mudar a realidade? Ainda que para aquele que utiliza essas mesmas palavras, mudando o discurso para tornar essa outra realidade inteligivel? Na minha modesta prespectiva considero que as palavras definem a realidade mais naquilo que não são, em confrontação umas com as outras, do que naquilo que poderão ser, nesta lógica ao mudar as palavras, não estarei a mudar a realidade?... Numa das muitas leituras, que o mestrado nos obriga a fazer (e ainda bem) ficou a ideia de que a realidade é sempre uma questão de prespectiva, e quanto mais nos aproximamos dessa mesma realidade, avançando em relação ao passado mais objectiva e concreta nos parece, mas ao avançarmos para o presente (e porque não futuro) mais incrivel se torna (Rushdie). Ainda sobre os sapatos, "posso levar 1 par"? 3º sapato: a ideia que os Assistentes Sociais sabem ser, mas não sabem fazer. 4º sapato: A ideia de que todos sabem fazer o social menos o Assistente Social.

Foto_c_thumb_small Florbela | Clock  17 March 2009:

A propósito do 4º sapato, na minha perspectiva, entendi isto como uma crítica à ineficácia da intervenção quer na esfera pública, quer mesmo na privada. Estou-me a reportar à terminologia nova, encontrada para nos referirmos aos velhos problemas. A meu ver, isto pode ser entendido como estratégico, ao criar um efeito potenciador e aglutinador de um novo fôlego, para reunir energias em torno do combate ao velho problema, e assim, atingir a mudança efectiva da realidade. Nesta linha de pensamento sim, ao mudar as palavras poderei estar a contribuir, de alguma forma para mudar a realidade. Mas isto é o meu lado optimista a falar. Porque acho que o que Mia Couto queria dizer, é qualquer coisa do género: deixem-se de tretas de andar sempre a mudar o nome às coisas e a iludir-se que dessa forma se vão mudar as próprias coisas.. O que é preciso é que, cada um de nós faça algo de útil, que contribua para mudar efectivamente a realidade para melhor. Numa dicotomia DIZER/FAZER em que o 2º elemento deve levar vantagem. Não consegui perceber a questão da ‘palavras definirem mais naquilo que não são, do que naquilo que poderão ser’…

Foto_c_thumb_small Florbela | Clock  17 March 2009:

Bom, quanto ao 3º sapato, discordo. Acho que não existe esse preconceito, aliás julgo que a questão, a existir, se coloca pelo inverso, isto é, a ideia que os A.S. sabem fazer porque aprenderam e treinaram no curso os métodos e a técnicas, mas não sabem ser A.S., porque isso implica um’bricolé’ quase uma ‘arte’ para a qual se tem‘talento’, ou não. Nesta dicotomia FAZER/SER em o 2º elemento é extraordinariamente mais amplo, englobando mesmo o 1º.

Foto_c_thumb_small Florbela | Clock  17 March 2009:

Também discordo do 4º sapato proposto pela Magda, mas só em parte. Nunca me dei conta que excluíssem um A.S. desse saber fazer o social, apesar de constactar que o social é um pouco como no futebol, toda a gente percebe do assunto. E, temos que admitir que o social não tem núcleos muito específicos de acesso exclusivo à aprendizagem por parte de que faz formação nessa área; contrariamente ao que acontece, por exemplo, com o professor quando aplica 'o método das 28 palavras' para ensino da leitura a crianças com alguma deficiência, ou o enfermeiro quando aplica uma injecção. É assim mesmo. Depende da natureza das coisas e não temos que ficar agarrados a esta questão, sob pena de perdermos energias, tempo e boas oportunidades de intervir eficazmente na área sob a nossa alçada.

Foto_c_thumb_small Florbela | Clock  17 March 2009:

Estive 5 anos numa equipa com 2 dezenas de professores e quase uma dezena de técnicos (psicologia, fisioterapia, etc.) e posso partilhar convosco que esse debate ficou arrumado nos primeiros 3 meses, a meu ver porque assumi logo à partida que eu não sabia ir para a sala de aula ensinar com o ‘método das 28 palavras’, e que as docentes e outros técnicos, sabiam fazer o social. Aliás, antes de chegar a A.S. à equipa era assim que acontecia, com resultados menos bons muito mais por causa da falta de tempo para investir nessa área do que por não se saber fazer. Estou a lançar um ponto que acho polémico, mas até me demonstrarem o contrário, defendo que a afirmação profissional, no sentido de aumentar o mérito, o prestígio e o reconhecimento por parte dos outros; se devia tentar fazer muito mais pelo conteúdo das práticas (como é que cada um de nós age lá, no terreno e no preciso momento em que somos os protagonistas da história) e muito menos pelo lado formal, dos debates e encontros que se resumem a repetitivos desabafos de falta de reconhecimento; em que, a meu ver, os A.S. subestimam a utilidade, a eficácia e o conteúdo das suas práticas. Na minha perspectiva a realidade nega este discurso profissional.




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