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A re-definição de uma prática profissional
14 March 2009
Partilho aqui convosco uma das grandes preocupações sobre as quais se tem centrado a minha reflexão nos últimos tempos"
Uma discusão acessa e uma reflexão que surge:
sempre que tenho uma pessoa num atendimento, cada uma das quais mais diferente da anterior e com "problemas" também eles muito diversificados e "atipicos" porque desenquadrados das respostas que se veiculam;
sempre que ligo a televisão num canal generalista e em pleno horário nobre (ou pela tarde dentro), acções sensasionalistas são veiculadas através do slogan "aquilo que os Assistentes Sociais não conseguiram fazer em tanto tempo", (pensem em exemplos de grandes marcas e grandes figuras publicas, não faltam por ai), responsabilidade social - moda ou paradigma?;
quando uma conhecida me questiona sobre qual o objectivo de estar a tirar o mestrado, e após a explicação surge o comentário - "muito bem, hà ai muita gente que deve ser investigada, a receber dinheiro e nunca fizeram nada";
quando tenho a minha chefia a dizer "mas o que é que se passa com aquela familia, devia de fazer isto..., isto...., e isto..., e o problema resolvia-se"; e por ai fora
(exemplos não faltam, ou não seria este o motivo que me leva a estar pelo ciaris com um dia/noite fantástica lá fora e que me levam a escrever cada linha da minhe tese)...
Defendo a ideia de que todos estes questionamento e transformações que se têm vindo a verificar, banalizando o Serviço Social, estão inter-relacionados com as transformações mais amplas que enquandram e definem a sociedade actual.
Face a estas mudanças, questionamentos e banalização da questão social como se têm sentido na prática os Assistentes Sociais? A prática profissional encontra-se reforçada ou descaracterizada? Qual o lugar que cada um de nós aceita dar a esta prática profissional?
Original Language:


A realidade é sempre uma questão de perspectiva e , a meu ver é por aqui que passa um eixo fundamental do trabalho social. Deparei-me já várias vezes com pessoas que, na minha perspectiva (que era, aliás, também a da equipa em unanimidade), estavam mal, deviam mudar e havia condições e competências para isso; mas na perspectiva delas tratava-se duma vida normal, manifestando-me com muita clareza que era assim que queriam continuar a viver. Deslocada a questão para o terreno dos valores questiono-me que direito tenho eu, por exemplo, de ‘pressionar’ uma mãe que vive em condições de pobreza extrema, dependendo de subsídios da Seg. Social (negligente, segundo a minha/nossa perspectiva) a proceder à laqueação porque já vai no 8º filho. No entanto, já me parece que temos o direito de exigir que as pessoas trabalhem e se esforcem para ganhar o seu próprio sustento e saírem do RSI o quanto antes, desde que tenham condições para tal. E… pronto, lá caímos nós no problema da perspectiva. Para uns há muitas condições para deixar de se ser subsídio-dependente e, daí a fortes e frequentes críticas ao processo de atribuição desses subsídios (a ponto de acharem que no mestrado iríamos investigar isso mesmo); enquanto para outros a coisa é mais entendida na linha dos ‘cuidados sociais paliativos’, como forma de não se deixar degradar ainda mais a situação social em causa. No que à minha prática diz respeito, ando sempre à procura de me conseguir posicionar numa zona de actuação de equilíbrio, tentando definir e consciencializa-me dos pontos extremistas, como forma de não cair em nenhum deles, porque já diz o povo que ‘no meio é que está a virtude’ e porque a tentação espreita, sobretudo em momentos de grande desgaste e cansaço emocionl – que são, bem vistas as coisas, quase todos os momentos de actuação profissional do A.S.
Ainda bem que estamos numa área em que nos aparecem diariamente problemas diversificados. Se não fosse assim, seria muito difícil aguentar o tédio, sobretudo quando se tratam de pessoas que têm instalado o hábito do combate à rotina, não achas? Julgo que a responsabilidade social, assim com estes moldes, é uma moda que vai acabar por ganhar novos contornos, com o passar dos tempos. Também com os cenários demográficos que nos estão a empurrar para uma segurança social cada vez mais falida, à medida que nos projectamos em futuros mais longínquos, não admira que as televisões e algumas empresas ‘façam aquilo que as A.S. não conseguiram em tanto tempo’. E, ainda bem, a meu ver. Fico muito feliz com isso, também enquanto A.S., porque o meu objectivo final é a resolução do problema social em si, e não a minha afirmação profissional. Pouco me importa que seja uma empresa privada a colher os louros do sucesso duma intervenção. Interessa-me e agrada-me ver esses fins atingidos. Não vejo que o S.S. esteja banalizado, muito menos a questão social. Quando olho subjectivamente para o passado, encontro múltiplos reforços, extensas melhorias e grandes progressos no plano social. Mas isto é tão polémico que fica para desenvolver noutra ocasião.
Quanto às chefias, estimada Magda, acho que é assim mesmo, não há muita volta a dar-lhe. O chefe é o chefe, e o A.S. é um assalariado. E eu detestei ser chefe, situação que já experimentei profissionalmente por duas vezes, e agrada-me muito a condição de assalariada. Reconhecendo que se torna por vezes muito difícil, este ‘equilibrismo’ que alguns chamam de ‘mediação’ entre os interesses do nosso patrão e a nossa perspectiva sobre os interesses do nosso utente. Paula Faleiros, com a teoria da correlação de forças defende que o A.S. deve tomar posição em defesa dos interesses do utente por se tratar do lado mais fraco. Se eu levar isto à letra… o mais provável é ser despedida! O nosso papel aqui, deverá ir muito na linha da mediação, no sentido da negociação, isto é, conseguir transpor, diria traduzir, para a linguagem patronal o velho lema da mediação: ‘ninguém ganha em absoluto, ninguém se considera o perdedor; ambas as partes acordam ceder alguma coisa, para ambas ficarem a ganharem com os resultados finais’. Persuadir o chefe, a meu ver, passa por aqui. Agora… lá estamos novamente na situação do ‘bricolé quase artístico’, para o qual não há manuais de instruções dado a diversidade e a imprevisibilidade das situações.
A melhor forma que encontrei para ultrapassar essa questão de ter as pessoas a dizerem-me que ‘se eu fizesse isto… e isto…o problema resolvia-se’ foi envolvê-las ao máximo nesse mesmo problema. É um pouco como colocar dentro do campo a jogar, aqueles que de fora parecem saber tudo. Claro que com o chefe isso é mais difícil, embora não impossível, mas em sede de equipas multidisciplinares torna-se muito mais acessível e bastante eficaz. Essa foi aliás uma dificuldade que encontrei no relacionamento com as A.S. da Madeira, que em nome do sigilo profissional, se isolavam e não envolviam os outros elementos da equipa na resolução dos problemas do seu foro profissional. Pior que isso, tentaram impor-me essa regra. E eu não obedeci, por causa de (lá está!) ter uma perspectiva diferente de visão da realidade